02/02/2005 - Homens, mulheres e cabelos

De Rosana Hermann.



O drama do homem com seu cabelo não é uma questão de tratamento mas de abandono. Todo homem adulto sofre edipianamente ao testemunhar a partida, fio a fio, do que um dia foi a cabeleira pela qual mamãe passou os dedos carinhosamente, antes de dar beijinho de boa noite e arrumar a mochilinha para a faculdade.



Este abandono definitivo, parcial ou integral, provoca reações adversas, que vão do desespero à vingança. No caso de desespero, ao perceber a irreversibilidade da calvície, há quem adote o implante homeopático, um método gradual de reconstituição do crime que evita que a careca fique com aquele aspecto de reflorestamento de eucaliptos. A vingança é mais radical, um raciocínio mais sado-maso-macho-quista. Se os cabelos se amotinaram com a intenção de partir, é melhor raspar o mal pela raiz, máquina zero. Assim, se alguém acusar o homem de ter ficado careca ele pode negar dizendo que ele é que decidiu assumir seu lado Roberto Justus demitindo um a um seus aprendizes incompetentes.



Com as mulheres a questão não é de abandono já que é raro uma mulher ficar careca. O problema da mulher com o cabelo é a relação. O cabelo feminino é um eterno insatisfeito, um ingrato traidor. Não se pode contar com ele. Por mais que a mulher se dedique, cuide, zele, ame e invista na relação, assim que surge a primeira oportunidade, ele volta para seu pior estado fundamental.



O cabelo feminino é uma criatura mimada, malcriada e birrenta. Quando ele quer, acorda de bom humor, trigueiro e sensual, exalando beleza e sedução. Quando o cabelo acorda com o shampoo de ovo virado, amassado como um capacete depois do atropelamento da moto, não tem água da pia, óleo da tia nem macumba do meio-dia que faça com que ele se comporte. Nesses dias de cabelo ruim, a mulher entra em fashion-depression. Sem poder contar com o cabelo como aliado, sem poder escondê-lo sob um chapéu, uma boina, um guarda-chuva ou uma barraca de camping com avancê, a mulher não consegue achar uma roupa pra vestir, joga-se na cama, chora, perde a hora e o emprego. O governo esconde mas parte do desemprego da mão de obra feminina nacional é causado por cabelos rebeldes.



Cuidar dos cabelos custa caro, demora, dá trabalho e dói. A pia de mármore onde os cabelos são lavados foram cuidadosamente desenvolvidas para destruir sua coluna de forma permanente, muito provavelmente uma parceria intencional entre o salão e o massagista do mesmo shopping. O processo de tintura gera desconforto, coceira e ardência no regaço, em geral, acompanhado de uma manicure com Ph.D em tortura em Abu Graib. A pós-produção também não é nenhum pic nic, como na hora da escova. Pra quem não sabe, a escova é uma espécie de festa da Xuxa à temperatura do inferno pois além de todo estica e puxa, o secador turbinado no máximo torra as pontas da orelhas por aproximação dezenas e dezenas de vezes.



Em compensação, quando tudo termina e o cabelo sobrevive às escovas progressivas, japonesas e lusitanas, banhos de óleo de amêndoa, mamona, óleo diesel e extra virgem com pistache, depois de alisamentos, relaxamentos e chapinhas, o resultado é o mais alto clichê da baixa literatura: uma moldura para seu rosto. E assim, com a juba em dia e as garras envernizadas, a leoa sai pelas savanas urbanas pronta para seduzir os machos, sejam eles carecas ou cabeludos, pelados ou peludos, não importa: para haver sexo feliz e seguro, basta uma mulher com a cabeleira tratada, uma camisinha lubrificada e um homem que lhe abra a porta.



Rosana Hermann escreve aqui toda quarta uma crônica de quinta, até segunda ordem. Visite seu blog.
Blônicas - 12h39 [ (74) Comentários, faça o seu também! ]