16/02/2005 - A grelha

De Rosana Hermann.



Quando você dá um presente de casamento, toda sua vida, obra e imagem pública ficam eternamente associadas a este objeto. Mesmo que o casamento acabe dois meses depois ou dure toda uma vida, seu nome estará presente no dia-a-dia dos cônjuges em expressões como 'me passa a molheira que a Ana Maria deu ', 'o liquidificador que o Roberto mandou quebrou ontem' ou 'pode ficar com o vaso horroroso da sua tia.'



Incomodada com a possibilidade de me tornar para sempre a 'Rosana do processador de carne', resolvi comprar um segundo presente, fora da lista oficial, algo que representasse a minha pessoa com a dignidade e galhardia que aspiro ter. Assim, disposta a arrombar o orçamento mensal em prol da ascensão da minha imagem pessoal, fui a uma loja de eletro-eletrônicos de última geração, algumas horas antes da cerimônia. Selecionei a faixa de preços que arrancaria menos lágrimas, o tamanho e o peso que pudesse carregar até em casa de salto alto e cheguei a uma bela grelha, redonda, negra, antiaderente, com o suporte em metal branco e uma imensa tampa de vidro em forma de bolha, parecendo uma espaçonave. Linda mesmo. A vendedora deu duas ou três informações, paguei e fui retirar o meu embrulho.



Qual não foi meu choque de 220 mil volts quando vi na embalagem, entre rodelas de cenoura e fatias longitudinais de abobrinha, o ex-campeão de boxe na categoria peso-pesado George Foreman. 'Faux-d'ime', pensei em francês. Serei eternizada como a fulana na grelha do 1406, a amiga do noivo que comprou no Polishop e mandou entregar no Morumbi. Talvez fosse o caso de pisar na jaca e mandar também as facas Ginzu e as meias Vivarina.



Emergindo do hiato existencial que parou o tempo e comprimiu o espaço naqueles breves segundos de contato com George, pedi para o rapaz do embrulho nocautear o Foreman. Ficou a grelha num imenso isopor branco. Medi a caixa às palmadas e sai correndo pelas papelarias em busca de uma caixa neutra, sem sorrisos nem couves-flores. Voltei com uma caixa linda, imensa, perfeita.



Ou quase. Evidentemente o Foreman mandou fazer a medida da embalagem em polegadas estratosféricas de forma que nenhuma caixa de um país com sistema métrico comportasse a maldita grelha. Cortamos o isopor à golpes de tesoura, cientes de que ficaria uma merda mas, pelo menos, entraria dentro da porra da caixa nova. Enquanto o rapaz fazia a cirurgia eu me livrava dos folhetinhos com fotos para deixar apenas as instruções de uso em texto.



A tarde caiu e, quando finalmente meu jab de esquerda fez a grelha cair dura dentro da caixa nova, o padre já devia estar entre o sim, o cruz-credo e o amém. Perdi a cerimônia. Mas fui à festa, levei o presente e aparentemente tudo deu certo, já que o noivo nunca tocou no assunto e continua falando comigo normalmente.



Eu guardava este segredo de estado até o fim de semana passado quando meu amigo Ballona me chamou pelo MSN dizendo: "comprei uma Grelha do George Foreman! a melhor compra de 2005! é genial! compre uma também!"



Quase desmaiei. Ballona é um cara chiquérrimo, moderno e muito querido. E foi só com o aval dele que percebi a carga de preconceito que tenho com produtos do 1406. Perdi meu tempo, a cerimônia, por uma babaquice sem tamanho, fruto do meu complexo de inferioridade social advindo uma infância pobre somado a uma longa vida universitária de muito sexo livre e luta ideológica teórica contra o imperialismo americano.



Agora que venci mais um round contra minha idiotice, resolvi comprar uma grelha também, a melhor, a mais bacana, a mais peso-pesado, do George Foreman, ainda esta semana. Não vejo a hora de receber na minha casa a imensa caixa com os geniais dizeres "As seen on TV".



Se bobear, compro a Flat-Hose, o Invisible-Bra e o Air-o-Space-Sofa-Bed. Vai que o Ballona resolve dormir com a esposa em casa antes do nosso jantarzinho na grelha.



Rosana Hermann escreve aqui às quartas, uma crônica de quinta, até segunda ordem.
Blônicas - 12h26 [ (44) Comentários, faça o seu também! ]